Fechou ontem sua trajetória, aos 88 anos e entupido de livros a escrever. Mas nos deixou muito, me deixou muito. Deixasse A Trégua, livrinho que dá nome a este blogue, e já estaria de bom tamanho. Não irei qualificar sua obra, seria ofensivo, e ainda me restam a vergonha e o senso, assim como a tristeza. Tenho minhas manias, uma delas é eleger com quem eu falaria sobre a morte, e ele era o meu escolhido, desde que o ganhei de presente naquele começo de 2007 de Salvador. É desolador quando se perde esta pessoa, até o momento eu apenas as trocava por outra mais adequada à façanha. E agora? Com quem tirarei estes nós? Provavelmente será em sua obra.
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Lindo o que Saramago escreveu sobre a morte do amigo em seu blogue.
Morreu Benedetti
A cabeça diz-nos que não há milagres, mas o coração insiste em crer que um milagre de vez em quando, além de não alterar a ordem do mundo, viria bem como compensação das inevitáveis tristezas da vida. No fundo, queríamos acreditar que a leitura dos poemas de Benedetti, posta a correr ao redor do mundo, faria recuar a morte que ameaçava. Mario perdeu a batalha, nós, os seus amigos, os seus leitores, também. Restará a memória, restarão os livros, mas, neste momento, memória e livros quase nos parecem somenos. A dor e o desgosto não adormecerão tão cedo. Havia Mario Benedetti e deixou de haver.
José Saramago
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Mais lindo ainda o universo Benedetti, que construíram enquanto ele esteve malzinho de saúde. O ousado e sensível projeto - Cadena de poesía - consistia em ler poemas dele e passar pros amigos.
http://blog.josesaramago.org/especiales/benedetti
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HASTA MAÑANA
Voy a cerrar los ojos en voz bajavoy a meterme a tientas en el sueño.
En este instante el odio no trabaja
para la muerte, que es su pobre dueño
la voluntad suspende su latido
y yo me siento lejos, tan pequeño
que a Dios invoco, pero no le pido
nada, con tal de compartir apenas
este universo que hemos conseguido
por las malas y a veces por las buenas.
¿Por qué el mundo soñado no es el mismo
que este mundo de muerte a manos llenas?
Mi pesadilla es siempre el optimismo:
me duermo débil, sueño que soy fuerte,
pero el futuro aguarda. Es un abismo.
No me lo digan cuando me despierte.
Mario Benedetti
Por agora, prefiro a ingênua crença de que ele está vivendo este sonho, ou ao menos sonhando sem nunca mais ser despertado, para que assim o sonho não se transforme mais em pesadelo.


